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por vocação ou condicionamento, conhecedores de outras terras e
costumes, eles já se sentiam livres para alterar as soluções
tradicionais das províncias de origem.
Instrumental
improvisado, materiais desconhecidos, inspiração de construções
indígenas, começam a criar fisionomia própria em nossa
arquitetura nascente.
As
casas mais antigas que conhecemos aqui são de terra, taipa
de pilão ou adobe, sob cobertura de
palha e cerâmica tosca. As paredes brancas, com portas e janelas
coloridas (Fig. 5-A e 5-B).
Na
região das Minas, a partir do século XVIII, predominaram as
estruturas livres, onde terrenos inclinados transformam em pilotis
os montantes de madeira, que também podem ser de pedra ou tijolos.
Grandes
beirais, paredes grossas, defendem do calor e das chuvas, na
primeira fase em que aqui se erguem as construções (Fig.1.).
No século XVIII os beirais continuam grandes, mas as paredes são
de taipa fina e já não sustentam
mais pesados telhados.
Nos
arraiais ou vilas, as igrejas e as casas da câmara se destacam
intencionalmente das casas ou residências, embora usando os mesmos
materiais.
Aqui
estiveram desde os primeiros séculos grandes arquitetos. [...] Eles
vêm para construir fortificações mas estendem seus trabalhos a
solares e igrejas - sobretudo na Bahia e em Pernambuco.
As
construções rurais, no entanto, são quase sempre de autores
desconhecidos, embora em muitos casos se encontrem trabalhos de
talha apurada, como no Sítio do Padre Inácio, em Cotia, bem perto
da Capital de São Paulo. Colunas de bela perfilatura, beirais
encachorrados de recorte apuradíssimo (Fig. 4-A),
denunciam a presença de caprichosos artistas.
.../...
Quando
a Corte se transfere para o Brasil, em 1808, dá-se a grande ruptura
com o passado. Um estado europeu se desloca para a América. As
conseqüências serão grandes e sobretudo num momento em que a
Europa sofre grandes transformações.
Napoleão
acabara com os últimos resquícios do rococó e uma missão de
adeptos herdada de seu regime é transferida para o Brasil. São
artistas notáveis que aqui vêm parar ou mesmo se radicar. [...]
Grandjean
de Montigny, fundador do curso de arquitetura da Academia Imperial
de Belas Artes (Fig. 2), já se
distinguia de seus colegas como Prix de Rome. Este mesmo arquiteto,
que transformou a nossa arquitetura em neoclássica - com os seus
telhados visualmente omitidos - constrói a sua própria casa, no
Rio de Janeiro, com influências sensíveis de nossa tradição. A
sua casa, caiada de branco, dá grande ênfase ao telhado.
O
neoclássico imediatamente implantado na Corte influi nas sedes das
fazendas, cujos proprietários, muitas vezes formados na Europa,
aceitam com facilidade as formas urbanas de uma arquitetura
totalmente nova para nós.
Se
algumas dessas casas são projetadas por profissionais, a maioria é
interpretada por seus proprietários, que exigem dos mestres
semelhança com os palácios e palacetes do Rio de Janeiro. Esta a
razão do caráter urbano das casas de fazenda no ciclo do café.
Em
seguida se faz sentir um acentuado gosto eclético,
na ênfase que se dá aos elementos de ferro importados da Europa.
Mais tarde outros elementos decorativos começam a aparecer com freqüência
nas madeira recortadas. O que antes só era visto em balaústres e
parapeitos de varandas e sacadas passa a enfeitar telhados com lambrequins
quando o chalé substitui o que restava do neoclássico.
Ao
contrário do que ocorreu anteriormente, Lúcio Costa, pioneiro da
arquitetura moderna, reintroduz nas cidades belos elementos da
antiga tradição rural (Fig. 3).
[...]
*
O
ciclo do café no Vale do Paraíba corresponde, em sua duração, à
vigência do estilo neoclássico e ao início do ecletismo
na arquitetura brasileira.
Trazido
pelos arquitetos portugueses que vieram com a Corte, o neoclassismo
se consolidou e se expandiu efetivamente através da sistematização
de seu ensino com a inauguração da Imperial Academia de Belas
Artes, em 1826.
A
neoclássica é uma arquitetura intelectualizada por excelência
(Fig. 2, 4-B,
5-D 5-F).
Todos os seus efeitos estão condicionados ao uso correto de
elementos e detalhes arquitetônicos dentro de um sistema muito
preciso de relações e proporções. Busca uma impressão de
harmonia e sobriedade através da modulação,
do equilíbrio e da simetria. Em sua
aparente simplicidade depende de materiais nobres e de mão-de-obra
bastante especializada. Mão-de-obra e materiais que não estavam
disponíveis no campo, nas fazendas.
A
arquitetura rural, em sua absorção do neoclássico, sofreu,
portanto, uma simplificação quase que inevitável devido às
circunstâncias do meio. É preciso lembrar também que a vida numa
fazenda de café no início do século XIX muito pouco tinha em
comum com a vida numa grande residência de campo européia do mesmo
período. As estradas eram outras, as formas de exploração da
terra, as atividades, os divertimentos, as relações sociais eram
completamente diversas. A permanência de certas estruturas
tradicionais na configuração do espaço expressa uma realidade
social local.
Do
neoclássico os fazendeiro e seus construtores aproveitaram detalhes
que serviam de emblemas de sua atualização: entablamentos
simplificados (Fig. 4-C e 4-D),
molduras e pestanas de janelas (Fig. 5-C,
5-E e 5-G),
capitéis sugeridos sobre as
pilastras dos cunhais (Fig. 4-C
e 4-D). E ficaram por aí, muitas
vezes distorcendo de maneira saborosa o que copiavam da arquitetura
erudita.
Nada
de pórticos, frontões, escadarias, colunatas, arcadas,
balaustradas, nem platibandas com estatuetas ou jarrões (Fig. 4-B).
O telhado com beiral resolvia de maneira muito mais prática o
problema de jogar a água no chão, prescindindo de calhas e
condutores embutidos que entupiam facilmente e ameaçavam com
infiltrações o interior da casa (Fig. 4-C
e 4-D).
Fora
a aplicação desse reduzido repertório formal, a principal
contribuição do neoclássico à arquitetura da casa-grande foi a
composição mais ordenada de suas fachadas, imprimindo-lhes um
aspecto mais pensado que o das construções coloniais.
Na
segunda metade do século XIX, com a melhoria das estradas e a
implantação de linhas férreas, os fazendeiros passaram a poder
mandar vir da capital esquadrias de melhor desenho e execução e
ornatos e alpendres de ferro,
estatuetas, luminárias, ladrilhos, louça sanitária, papéis de
parede, tudo de fabricação industrial e importado da Europa. É a
introdução do ecletismo na província.
A
princípio esses elementos eram escolhidos aleatoriamente,
dependendo do gosto do proprietário, e aplicados sobre casas de feição
neoclassicizante. Mas, ao final do ciclo do café, a arquitetura já
está passando por uma nova transformação e as sedes mais tardias
são francamente ecléticas, muitas vezes projetadas pro arquitetos
atuantes no Rio de Janeiro.
No
que se refere à distribuição interna das casas, as mudanças
trazidas pelo neoclássico demoraram a ser aceitas. As fazendas mais
antigas foram ainda calcadas nos modelos tradicionais,
setecentistas, sem corredores que organizassem a circulação e com
alcovas em vez de quartos com janelas abrindo para fora.
À
medida que a vida de seus ocupantes toma contornos mais civilizados,
a disposição e o agenciamento dos cômodos vão se aprimorando. Várias
casas-grandes apresentam opulentos salões decorados com pinturas
murais. Os motivos são diversos: alegóricos, paisagísticos,
florais e interessantíssimos trompe-l'oeil imitando objetos e utensílios
de uso cotidiano, móveis e elementos decorativos. Essas pinturas
muitas vezes contrastam curiosamente com a casa em si, com portas e
janelas toscas e pisos de tábuas irregulares.
Com
relação às outras construções da fazenda, a casa-grande sempre
ocupava uma posição de domínio, geralmente fechando um dos lados
de um grande espaço quadrangular em torno do qual agrupavam-se também
as dependências - a senzala, a tulha e as oficinas. No confronto
com essas construções de pau-a-pique, com esteios de madeira roliça
ou faquejada, a sede vira palacete e a distância para com a tradição
arquitetônica colonial fica mais marcada.
Hoje,
das dependências que ainda se conservam de pé, poucas são as que
mantêm o uso original. a migração do café para outras regiões
acarretou seja a falência das fazendas, seja a sua transformação
em estabelecimentos dedicados à pecuária. Com a mudança de
utilização mudaram também as necessidades de instalações, e na
maioria das vezes, dos primitivos conjuntos apenas a casa-grande
continua com a sua função inalterada.
*
A
análise arquitetônica das casas-grandes que aparecem neste livro*
confirma as quatro categorias apontadas por Joaquim Cardos em artigo
publicado na Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, em 1943, e acrescenta a elas uma quinta categoria.
O
primeiro tipo (Fig. 6) é o herdado dos
engenhos de açúcar do século XVIII. Em seu aspecto geral essas
casas, com alpendres, capelas e puxados que se acoplam ao volume
principal, expressam muito mais uma composição acidental que uma
intenção plástica determinada, conseqüência de uma maneira de
construir despretensiosa e primordialmente prática. Sua estrutura
é quase sempre de esteios de madeira sobre baldrame
de pedra, e as paredes, de taipa de sebe. O telhado, de quatro águas,
espalha-se sobre os anexos em abas que prolongam as águas
principais, dando às fachadas laterais um perfil característico.É
a própria irregularidade do todo, muitas vezes sublinhada pela
tentativa de ordenar a composição de alguns vaõs, que empresta a
essas casas uma graça especial.
[...]
O
segundo tipo (Fig. 7) tem como sua única
representante aqui a Fazenda Pau d'Álho, pioneira no cultivo do café.
Caracteriza-se pelo volume compacto, coberto por grande telhado de
quatro águas, pelo alpendre que
rasga de ponta a ponta a fachada principal e pela massa sólida de
seu embasamento, um porão quase sem aberturas que se assenta
pesadamente sobre o solo. Mesmo sem contar com a elegante colunata
toscana que confere tanta nobreza aos alpendres
de Colubandê, do Capão do Bispo e do Viegas, é grande a semelhança
de Pau d'Alho com essas belas casas fluminenses, todas,
aparentemente, do final do século XVIII.
[...]
O
Terceiro tipo (Fig. 8) de casa rural é
o do grande sobrado de muitas portas e janelas: o "casarão"
antológico que vem sempre à mente quando se fala em fazendas de
barões do café. Ele não é, no entanto exclusivo do universo
rural, sendo, ao contrário, talvez o gênero de construção que
mais comparece ao longo de nossa história quando se trata de
construir um grande prédio, tanto urbano quanto rural, tanto civil
quanto religioso - haja vista os conventos e mosteiros que
provavelmente são o seu modelo fundamental.
É
nesses casarões que a boa composição arquitetônica se faz mais
necessária e perceptível. Aqui o acerto nas proporções e na relação
entre cheiro e vazios, bem como a eventual ornamentação, são os
únicos recursos para evitar a monotonia que as suas extensas
fachadas com janelas e tudo o que a elas se refere são primordiais
na evolução estética desses sobrados.
[...]
O
quarto tipo (Fig. 9) - casas de um
pavimento com um sobrado ao centro da fachada, ocupando uma área
menor que a do térreo - tem uma longa genealogia urbana. Sua origem
está certamente nos sobrados coloniais com dois andares e camarinha
ou torrões elevados como a Casa dos Contos, em Ouro Preto, e o , e
o Paço dos Vice-Reis, no Rio de Janeiro. Nas cidades a popularidade
do gênero, a partir de meados do século XVIII, é atestada não só
pelos inúmeros prédios que ainda estão de pé em todo o Brasil
como pelas descrições e lustrações dos viajantes estrangeiros do
século passado. Essa popularidade se explica talvez pelo perfil
aristocrático que resulta da ênfase dada ao corpo central, cujo
volume mais alto transforma os corpos mais baixos, mesmo quando
rudimentares, em "alas" laterais. Ao virar casa de fazenda
e casa chácara, esse tipo de sobrado perde um andar e ganha
geralmente uma varanda através da qual se faz o acesso ao
jardim.[...]
[...]
Finalmente,
o quinto tipo (Fig. 10) é o casarão
de um só pavimento, ou de um pavimento sobre porão alto. Sua
principal característica, fora a horizontalidade, é a existência,
ao centro da fachada principal, de uma escadaria de um ou dois
lances levando a um patamar geralmente coberto por um pequeno
copiar. Em alguns casos essa cobertura assume as dimensões de um pórtico
ou varanda, muitas vezes apoiado em colunas de ferro.
A
casa sobre porão alto - ou "habitável"- parece ser a de
origem mais antiga. São deste gênero, no século XVIII, numerosas
quintas portuguesas e alguns solares brasileiros, como a Casa do
Conde dos Arcos, em Salvador.
Na
transposição para a fazenda, esse tipo de residência fidalga
sofre a simplificação de praxe mas guarda a relação hierárquica
entre o térreo e o piano nobile, o que o diferencia do sobrado,
onde os dois pavimentos têm a mesma altura e geralmente servem,
ambos, para habitação. [...]
[...]
(MIRANDA,
Alcides da Rocha e CZAJKOWSKI, Jorge in Fazendas - Solares da
Região Cafeeira do Brasil Imperial. Rio de Janeiro, 1995,
pp.33-40)
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